segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Metade


"Que a força do medo que eu tenho, não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe, seja linda, ainda que triste...

Que a mulher que eu amo seja para sempre amada mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida, mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor,

apenas respeitadas, como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos.

Porque metade de mim é o que ouço, mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço.

E que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada.

Porque metade de mim é o que eu penso, mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto, um doce sorriso, que me lembro ter dado na infância.

Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio me fale cada vez mais.

Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba.

E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é platéia e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor,e a outra metade...também."


(Ferreira Gullar)

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